Gênero e Publicidade

A palavra em si é de um substantivo. Um substantivo masculino.

Definir a etimologia de “gênero” e classificar a palavra gramaticalmente é mais fácil que aplicar o conceito no dia a dia.

 

Já faz algum tempo que a questão de gênero vem sido debatida. Um holofote de reflexão foi jogado sobre a palavra e das – até pouco tempo – barreiras intransponíveis que ela cria.

 

No Dia da Mulher, a L’Oréal  Paris fez um pouco mais que apenas oferecer flores às suas consumidoras. A marca enxergou um mundo de novas clientes, comumente esquecidas pela publicidade. A equipe responsável pelo comercial, composta por Juliana Senra, Viviane Pepe, Renata Raggi, Sabrina Villar e Leônidas Pires (WMcCann) , conta que eles já haviam se atentado à questão do empoderamento feminino que vem sendo discutido nas ruas, nas redes e também dentro da própria agência. “Fomos lapidando esta ideia e enxergamos no Dia da Mulher o momento certo para dar voz a essas questões” dizem.

 

Não só a marca abraçou a ideia do comercial, mas também toda equipe envolvida. “Tínhamos pouco tempo de produção e por isso contamos com parceiros como fotografo e stylist que, ao saberem da proposta e leram o roteiro, se apaixonaram e fizeram questão de colocar a ideia na rua. Houve total sensibilidade durante o processo de criação. Cada palavra do roteiro foi estudada minuciosamente para estar ali”conta a equipe.

 

Feedback

Nem só de pessoas abertas às discussões se faz o mundo. Em uma realidade onde a intolerância e conservadorismo se mostram tão presentes, a marca não tinha uma garantia contra a rejeição de alguns consumidores. “Sabíamos que poderia haver opiniões negativas de pessoas mais conservadoras, mas as menções positivas foram muito maiores. O que é um bom sinal de desconstrução e aprendizado social”, comentam.

 

Com 24 horas no ar, a campanha estrelada por Valentina Sampaio atingiu 2 milhões de views no Youtube. Uma dessas visualizações foi de Anna Valentina, que tem muito mais em comum com a protagonista do comercial que apenas o nome.

 

Em uma das primeiras iniciativas publicitárias do país de abrir espaço a pessoas trans, Anna se sentiu representada: “Apesar da diversidade estética que há entre pessoas trans, Valentina, com certeza, fez muitas de nós vibrarem ao se expor no comercial. Acredito que a partir dessas pequenas representações, muitas garotas trans são capazes de se espelhar e, assim, acreditar que podem ter uma vida digna como qualquer outra pessoa. Representação é muito importante” diz. E é mesmo.

 

De fato a marca cravou mais um pilar de debate, especialmente nas redes sociais. Eles acreditam que este tipo de publicidade pode, efetivamente, fazer diferença no mundo, já que a falta de informação pode ser uma das causas do preconceito.

 

E não somente de Valentinas se faz o mundo trans. Ele se faz, principalmente, de valentia e coragem, valentes e Valentinas que são. Quem não faz parte deste grupo também pode (e deve) discutir as questões de gênero. O conselho da equipe por trás do comercial é justamente este. “Fale. Nas redes sociais, nas ruas, em torno do seu cotidiano. Fale sobre o assunto”, incentivam.

 

 

“Fico feliz de ver que a questão vem sendo cada vez mais veiculada e tem interessado pessoas de todas as partes. Logo, é muito importante pedir para que as pessoas não cheguem cheias de pré-conceitos na hora de abordar alguém trans. Algumas vezes, podem ser indelicados e invasivos sem terem, necessariamente, essa intenção.

 Se surgir a dúvida, pergunte à pessoa que pronome ela prefere. Nunca faça perguntas de cunho íntimo se vc acabou de conhecê-la. Isso pode parecer básico, mas, acredite, a maioria das pessoas esquece da conveniência quando defronte de uma pessoa trans”.

Anna Valentina, modelo e fotógrafa

 

 

Assista: